segunda-feira, 7 de junho de 2010

E tudo me divide

Não vejo realidade despedaçada. Antes fosse. Vivo o que, desde o 'de repente' daquele instante há pouco, dissolve, o real que está em mim, em água imprópria, mas nunca inoportuna. Dissolve tudo, sem permissão.

Flutuo com o mundo nas costas. Não por saber voar, mas por perder o chão. A palavra é o que tenta me estabilizar enquanto falo demais e digo de muito.

Em começo, o sentido bateu asas e voou... Indefinidamente

terça-feira, 25 de maio de 2010

Regue-me

Eu treinava olhá-lo pelos olhos enquanto ele me rodopiava entre os dedos feito iô-iô. Olho no olho é tensão quando os lábios não dizem sim. Então sorrimos. Por que não? Era nossa permissão impensada em meio a tantas outras permissões que negociávamos naqueles momentos. Num nada de burocracia, tudo fluiu. Não me ocorreu pensar enquanto guiada por aquela correnteza. Generosa, deixava-me senti-la em cada gota: batia, sorria, voltava e de novo seguia o curso que a música pedia. Suas curvas sabiam como me segurar; deixavam-me dançante, mas não me deixavam escapar - talvez porque eu mesma não quisesse. Aquela correnteza me levava (e eu deixava) para o lugar que fosse. Eu só queria saber se ela me rodearia. Fez mais, muito mais: me abraçou um abraço de dar fôlego e não quis me decifrar. E nos seus olhos lembrei de como seu toque me oferece água para florescer, não para me afogar.

sábado, 8 de maio de 2010

Sentidos sentidos

Quem disse que seria fácil? Essa pergunta me passa a ideia de que para ser bom e agradável precisaria ser constante e estável. Sinceramente, não sei por que temos essa impressão; de que felicidade é sorriso no rosto o tempo todo.
Eu posso chorar e ser feliz, posso duvidar e ser feliz, me incomodar e ser feliz, me machucar e ser feliz, cair e ser feliz, errar e ser feliz, saber da imperfeição que a vida é e ser feliz. Posso sorrir e não me sentir feliz.
Felicidade é aproveitar essa potência que nos atravessa e ao mesmo tempo de nós emana. É sentir que nenhum adjetivo faz jus às experiências da vida. É ver que não faz sentido classificar a vida em parâmetros dicotômicos. E rir do absurdo que a palavra pode fazer com nossa existência. Felicidade é justamente curtir o que escapa à palavra, é viver no indizível. Felicidade para mim é vida. Mas não racionalize, sinta.
A palavra não chega lá, não adianta. Não dá para exprimir o que pulsa na minha carne doída de possibilidades, de beleza latejante. Posso dizer apenas que há dor, da felicidade/vida que não pode ser transmitida, do sentimento-toque que não pode ser compartilhado. Daquilo que precisa furar, penetrar, atravessar e fazer-se sentir em cada um; daquilo que só se pode cercear; do processo. O que está no entre, a dinâmica. O que está por todo lado, mas em nenhum lugar. O imaterial que toca apenas os sentidos, mesmo em (e justamente por) sua impalpabilidade .
Territorialidade, rede, vida. Concerto. Eco. Harmonia.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Enquanto a hora passa sem chegar

Atravessou o corredor espiando cada um por quem passava. Sentou-se nas escadas e da pasta azul-surrada retirou uma leitura. Mirava-a de cabeça baixa. Quando alguém passava, a cabeça se erguia e logo retornava para o texto de letras uniformes. Até que a leitura, na pasta, guardou, a bolsa, da escada, pegou e se levantou. Deu alguns passos diretos e parou. Olhou para o lado, ainda o corredor; suspirou e na porta mais próxima entrou.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A verdade

Quando as palavras realmente não sabem o que dizem, há ao menos o impronunciável que elas tentam cercear. E por ser tanto, mas tão impossibilitado de ser pela linguagem, o que em mim explode e me constitui precisa da síntese estendida, que desperte o sentir do que está além. Hoje o que digo é o não-dito; é o que, por não caber, atravessa.

A pele é o que de(s)limita a existência.
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Para se ter uma noção do quanto uma semana de Freud, Foucault e Forró (e Lacan e Deleuze e etc.; sim, quis deixar os três F's em evidência), mexe com a gente.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Entre el mundo y mis ojos"

Aquele grito entalado na voz,
Embargando a vida;
Aquela força explodindo em si,
Transgredindo linhas;
A energia flutuando em véu
A pele ardida;
Aquela dor que expande o peito em grito
E alivia.

O grito entalado da vida que se faz em voz,
A força explodindo ardor nas peles-linhas,
A energia transgredindo o grito pela dor de si,
O véu flutuando sobre a vista.

A voz, o si, a linha, o grito, a vida.
O desassossego fingindo não ver o que
Ali via.